domingo, 29 de outubro de 2017

Para entender melhor o "queer"

Eu tenho elaborado alguns artigos na tentativa de explicar melhor o que vem a ser o "queer", procurando esclarecer que não existe uma "ideologia de gênero" na forma de um conluio perverso para acabar com a família tradicional.
Seguem, abaixo, os links para os textos:
Parte 1
Parte 2
Parte 3

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Livro: "Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade", de Judith Butler


Eu sei que não é um livro novo, mas essa é uma leitura que considero válida a qualquer tempo! A versão mais atual no Brasil foi lançada em 2015 pela editora Civilização Brasileira, mantendo a tradução já consagrada de Renato Aguiar.

Não pretendo entrar nas complexidades do pensamento de Butler, ok?! Farei apenas uma tentativa de explicar, da forma mais didática possível, o que torna esse livro tão importante e ao mesmo tempo tão polêmico, principalmente para as pessoas que não estão dentro da academia e não têm a oportunidade de assistir a aulas em universidades sobre o tema. Se você está na universidade, leu o livro e não entendeu nada, esse texto também pode servir.

Problemas de gênero foi originalmente escrito por Butler em 1989, num momento bastante prolífico dentro da teoria feminista, em que a chamada "segunda onda" dava lugar às críticas e buscas por análises interseccionais do sujeito "mulher". E é aqui que a filósofa em questão entra, com uma obra que não apenas questiona a ideia de um gênero feminino universal, mas desconstrói a própria ideia de gênero, tão cara ao feminismo.

Infelizmente, por ser uma leitura tão densa e com uma linguagem não necessariamente fácil de se compreender (apesar de bem objetiva e direta), os equívocos de interpretação se mantém até hoje, quase 20 anos depois de o livro ter sido escrito (bem como as distorções voluntárias, a exemplo da cruzada contra uma "ideologia de gênero" pelos conservadores).

A proposta de Butler é fundamentada pela noção de que o gênero é performativo, conceito derivado da "Teoria dos atos de fala", do linguista J. L. Austin. Um grande problema do termo em si é que muitas pessoas confundem performativo com performático e atribuir este último como característica do gênero é diferente daquilo que a autora coloca. 

Primeiro, o aspecto linguístico: um ato performativo de fala é aquele que cria uma realidade, que realiza uma ação, quando proferido. Para que isso aconteça, ele deve partir de um indivíduo a quem foi atribuída autoridade para, numa determinada situação, realizar um ato com essa fala. Pode parecer difícil de entender, mas um bom exemplo é o do casamento católico. Veja bem, não existe uma substância "casamento", o que existe são duas pessoas que pretendem que seu relacionamento se transforme em casamento, certo? Para que seu casamento passe a ser realidade, elas precisam de um sujeito com autoridade (o padre) que faça uma declaração performativa em uma situação específica (a cerimônia na igreja). Assim, quando o padre, durante o ritual da cerimônia, diz "Eu os declaro marido e mulher", ele cria a realidade do casamento.

Agora, falemos de Butler: o gênero ser performativo significa que ele é criado, como realidade, por uma série de práticas das pessoas em sociedade. Grosso modo, a autora propõe que não existe uma substância "gênero", mas um conjunto de ações, falas, comportamentos etc. que criam "homem" e "mulher". Prova disso é que os significados de "ser mulher" e "ser homem" podem variar muito de uma cultura para outra e, mais, que uma cultura pode criar um terceiro, quarto ou quinto gênero a partir do mesmo processo (como é o caso dos sujeitos two spirit em comunidades nativas norte-americanas).

Ao contrário do que conservadores têm alardeado, a noção de performatividade de gênero não nega a biologia. O que ela faz é chamar a atenção para os sentidos linguísticos, simbólicos e imagéticos que são construídos e impostos ao corpo de cada um de nós com base em nossa configuração biológica. Uma das intenções de Judith Butler é nos fazer questionar "o que é ser mulher?" e perceber que a maior parte daquilo que a sociedade nos faz acreditar que seja uma "essência feminina" é, na verdade, uma construção feita cuidadosamente e repetida a todo tempo, a fim de que isso se introjete em nossa identidade e pareça ser parte dela desde sempre.

Além disso, existe uma lógica que associa sexo a gênero, a desejo e a sexualidade, de forma que só possa haver um caminho para cada indivíduo. Dessa forma, se você nasceu com uma configuração biológica de "fêmea" (sexo), você só poderá ser uma mulher (gênero) e sua única possibilidade será a de se sentir atraída por homens (desejo), identificando-se como heterossexual (sexualidade).

E qual a importância disso? Bom, se você é uma garota que sofreu bullying a vida toda só porque gosta de roupas largas ou de jogar futebol, é importante que você tenha consciência de que isso não representa problema algum, nem que seu gênero é definido por essas preferências. 

Um caso recente foi o do adolescente Junior Silva, de 12 anos, que teve seu perfil no Facebook cancelado. O garoto faz vídeos para ensinar crochê em um canal no YouTube e, por ser menor de 13 anos, teve sua página de divulgação na rede social apagada. Nos comentários da notícia sobre o ocorrido o que se viu foi um grande número de pessoas apontando o quanto o fato de o garoto gostar de fazer crochê não era "coisa de menino". Isso mostra o quanto a sociedade se empenha para reiterar essa performatividade de gênero como uma realidade inquestionável, provocando e ridicularizando aqueles que têm escolhas aparentemente não condizentes com o gênero que lhe é designado.


Um menino gostar de crochê não fará diferença alguma no desenvolvimento de sua identidade de gênero, nem de sua sexualidade, qualquer que ela seja, mas porque existe uma associação cultural construída que determina quais são as atividades "de meninos", seu gosto representa uma quebra nessa "ligação coerente".

A noção do gênero ser performativo levanta ainda a possibilidade de se subverter essas regras impostas a fim de se estabelecer a "coerência do gênero". Justamente por não haver nada na biologia que justifique a expressão e os papéis sociais do gênero, podemos escolher novas formas de nos expressar que evidenciem essa artificialidade. Dessa forma, citando Butler, é preciso entender que "gêneros não podem ser verdadeiros nem falsos, reais nem aparentes, originais nem derivados. Como portadores críveis desses atributos, contudo, eles também podem se tornar completa e radicalmente incríveis" (2015, p. 244). 

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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Livro: "Vidas trans - A coragem de existir" e a contínua luta por visibilidade


O livro Vidas trans - A coragem de existir, lançado pela Astral Cultural, traz narrativas em primeira pessoa de quatro pessoas transgêneras: Amara Moira (autora de E se eu fosse puta?), Márcia Rocha, T. Brant e João W. Nery (autor de Viagem solitária). 

Conta ainda com prefácios de Laerte Coutinho, que dispensa apresentações e de Jaqueline Gomes de Jesus, professora de psicologia no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e primeira mulher trans negra a receber a medalha Chiquinha Gonzaga em março deste ano.

Em seus textos, cada um dos indivíduos discute suas experiências pessoais e como suas identidades foram sendo descobertas e desenvolvidas ao longo do tempo. Em comum, todos lembram da sensação de inadequação logo na infância e da pressão por parte da família e da sociedade para demonstrarem um comportamento dentro das expectativas geradas de acordo com o gênero que lhes foi designado no nascimento.

O livro vem em um momento propício, uma vez que, mesmo nunca antes tendo se falado tanto em transgeneridade e na multiplicidade das identidades e expressões de gênero, predomina a desinformação (por parte de quem não aceita ou não se interessa em compreender) ou, ainda pior, a distorção do tema. E, para melhor entender a respeito da experiência trans, nada melhor do que conhecê-la pelas vozes de quem passou e passa por ela.

Enquanto conservadores e religiosos se esforçam nessa cruzada contra uma suposta "ideologia de gênero", pessoas como os autores de Vidas trans buscam, incansavelmente, meios de fazer a sociedade compreender que sua condição não é meramente uma ideologia e que, em grande parte, o sofrimento vivido pelos sujeitos transgêneros é fruto da insistência em um biologismo que determina praticamente todo o nosso destino.

Quando evocamos Simone de Beauvoir para afirmar que ninguém nasce mulher, é isto que queremos dizer: a criança aprende a ser mulher, conforme as expectativas da sociedade. Se, ao nascer, o médico afirma que o bebê é menino ou menina, juntamente com a constatação de ser "macho" ou "fêmea" ele coloca, sobre a criança, tudo o que se espera de seu gênero dali em diante. No caso da menina, deve ser delicada, sensível, gostar de rosa, de brincar com bonecas e, ainda que nem saiba o que é a sexualidade, espera-se que demonstre um instinto materno. No caso do menino, deve ser corajoso, viril, racional, devendo demonstrar o mínimo de emoções possível. Se esse menino revela um interesse por, digamos, brincar com bonecas, logo a família, a escola, a sociedade, enfim, precisa corrigi-lo, apontando para como seu comportamento está errado.

A transgeneridade não é a negação da biologia, muito pelo contrário, é uma aceitação da complexidade do corpo e de seus mecanismos, algo que nos revela que o chamado sexo não se define somente por dois cromossomos, mas por toda uma série de interações e sinapses no organismo. O gênero, por sua vez, chega com toda sua carga sócio-cultural, de forma que não conseguimos mais isolar o biológico do discursivo. E, como esse livro nos mostra, essa incapacidade pode trazer consequências para toda uma vida.

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terça-feira, 11 de julho de 2017

Faleceu, na segunda (10), a escritora Elvira Vigna



Elvira Vigna, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, faleceu ontem, dia 10 de julho, aos 69 anos. A autora lutava contra um câncer de mama, diagnosticado em 2012, fato revelado apenas ontem pela família, que explicou o desejo de Vigna de não tornar o diagnóstico público porque isso faria com que deixasse de ser convidada para eventos. Ela estava internada desde fevereiro no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Nascida em 1947, no Rio de Janeiro, formou-se em Literatura pela Universidade de Nancy, na França, e cursou o mestrado em Comunicação pela UFRJ. Começou a carreira dedicando-se à escrita e à ilustração de livros infantis. 

Publicou, em 1988, seu primeiro romance, Sete anos e um dia, pela editora José Olympio. Quase uma década depois, enviou o original de O assassinato de Bebê Martê para a editora Companhia das Letras, que decidiu apostar na escritora e lançou a obra em 1997.

Seu romance mais famoso é Nada a dizer, publicado em 2010 e vencedor do Prêmio "Ficção" da Academia Brasileira de Letras, além de finalista do Prêmio Portugual Telecom. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa - narrada pela mulher que foi traída -, repleta de observações sarcásticas, realizada de maneira fragmentada, características que perpassam a escrita da autora. 

Outro livro bastante conhecido de Vigna é O que deu para fazer em matéria de história de amor, lançado em 2012. Também narrado em primeira pessoa por uma mulher, aborda duas histórias de casais, um deles já morto. O romance foi finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo.

Seu último romance, publicado em 2016, é Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, no qual um homem e uma mulher se encontram ao acaso no Rio de Janeiro. Enquanto ele conta à mulher sobre seus diversos encontros com prostitutas, empilhadas por seu imaginário masculino, ela vai preenchendo as lacunas narrativas. O livro recebeu o prêmio de melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

A narrativa fragmentária de Elvira Vigna é complexa e de difícil descrição. O estranhamento do leitor não passa depois do primeiro contato, pelo contrário, a angústia se mantém a cada página, a cada obra, e isso faz com que ela seja um exemplo da literatura contemporânea de suma importância. O humor e uma ironia que passam pela autodepreciação, movimento recorrente por parte de suas narradoras, reproduzem os tempos atuais com perspicácia.

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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pré-venda de "Paciência", de Daniel Clowes


Daniel Clowes é um celebrado quadrinista, mais conhecido pelo cult alternativo Ghost World. A obra em quadrinhos Paciência é uma espécie de "drama doméstico" em que Jack Barlow, obcecado em encontrar o assassino de sua esposa, Paciência, enquanto ainda estava grávida, descobre uma maneira de viajar no tempo. Voltando ao passado para impedir a morte de Paciência, ele se depara com fatos inesperados sobre a esposa e sobre si mesmo, acontecimento responsável por todo o suspense da narrativa.

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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Resenha: "O segredo dos corpos", de Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell


Eu me formei em Letras, mas no mestrado pude conhecer os Estudos Culturais, caminho que envolve uma interdisciplinaridade tão grande e tantas possibilidades de pesquisas que me trouxe percepções aprofundadas até mesmo para os meus hobbys e interesses fora da academia. Criminalística, exclusão social, violência e seus efeitos nos sujeitos são assuntos pelos quais sempre me interessei - na verdade, já prestei concurso para investigadora da Polícia Civil e pretendo fazê-lo de novo, embora tenha quase certeza que não conseguiria passar no teste físico.

Já assisti a inúmeros documentários sobre o tema e li outros tantos livros, mas, à exceção das obras da Ilana Casoy, não há muitas publicações em português elaboradas especificamente por especialistas (há muitos livros por jornalistas e escritores) e comprar livros importados requer um dinheiro que eu não tenho hoje em dia.

O livro O segredo dos corpos, da DarkSide Books, foi uma agradável surpresa para alguém aficionada pelo tema como eu: narra diversos casos em que o Dr. Vincent Di Maio, renomado patologista forense, trabalhou enquanto atuava como legista e, posteriormente, como consultor. E todas as histórias deixam claro o quanto essa profissão não é nem um pouco glamourosa, como os seriados de TV nos fazem acreditar - e que o salário é baixo quando comparado ao de outras especialidades médicas.

Dr. Di Maio é um velho conhecido dos fãs de documentários policiais, além de ser um dos mentores da Dra. Jan Garavaglia, da série Dr. G: Medical Examiner, exibida pelo canal Discovery Life, que é a responsável pelo prefácio da obra.

Em parceria com o autor Ron Franscell, conhecido por seus livros sobre crimes reais - um gênero literário bastante popular nos Estados Unidos - o Dr. Di Maio oferece uma visão em primeira pessoa daquele profissional sobre o qual, frequentemente, cai a responsabilidade de coletar os verdadeiros elementos que levarão à solução de um crime.

Entre as histórias estão a exumação do cadáver de Lee Harvey Oswald, assassino do presidente John F. Kennedy, devido à propagação de uma bizarra teoria da conspiração e a consultoria prestada durante o julgamento do vigia George Zimmerman, que atirou no jovem negro Trayvon Martin em 2012, alegando que ele apresentava comportamento suspeito.

A escrita permite uma leitura fluida, apesar de algumas informações repetidas a cada novo caso - quase como se as histórias tivessem sido publicadas separadamente antes de serem reunidas do livro, informação que não encontrei. De qualquer forma, o livro consegue manter o leitor interessado, principalmente devido às reviravoltas que ocorrem a cada caso, algumas com resultados mais ou menos esperados, outras com desfechos que não poderíamos imaginar.

Esse é um livro que recomendo bastante. Para quem quiser adquirir, segue o link:

domingo, 25 de junho de 2017

Resenha: "Diário de uma escrava", de Rô Mierling


As edições da DarkSide Books são meio que um objeto de fetiche, de tão lindas. Com este Diário de uma escrava não é diferente: capa dura e a lateral das folhas em tons que misturam azul e rosa, encontrando-se numa camada roxa ao centro da página. Um grande problema desses livros é que não tenho coragem de carregá-los comigo na mochila, porque tenho medo de danificá-los, principalmente quando a capa é muito clara, como a obra em questão, que tem a capa branca.

Eu não encontrei muito sobre a autora Rô Mierling, a não ser em sua página. Nela, descobri que a escritora e antologista é gaúcha e que escreve sobre crimes, terror psicológico e realidade social, aparentemente com o intuito de retratar a sociedade e a realidade cruéis em que vivemos.

A proposta de Diário de uma escrava segue precisamente essa linha. Trata-se do relato em primeira pessoa de uma garota sequestrada e mantida como escrava sexual. De fato, a autora se esforça para trazer ao leitor as nuances dessa experiência tão extrema, embora eu tenha a impressão de que ela está tão preocupada em chocar a partir do asco proporcionado por cenas de violência que se esquece de elaborar uma narrativa que seja realmente interessante. Parece não haver desenvolvimento ao longo da obra, apenas interações que levam a descrições pormenorizadas de situações de violência de maneira realista. 

O livro pode ter um excelente apelo entre adolescentes e jovens adultos, mas, do meu ponto de vista, a narrativa em si é boba e acaba ficando um pouco cansativa, pois falta complexidade. Eu não diria que o romance é ruim, imagino que seja, inclusive, muito útil para levantar o debate a respeito de sequestro de crianças e jovens no Brasil. Vi muitas pessoas elogiando a obra e acredito que quem gosta de uma leitura mais direta e sem muitas nuances pode gostar, mas não acho que o livro chegue a ser bom o suficiente para que eu recomende a leitores ávidos que já passaram dos 25 anos de idade.

Para quem quiser conferir: