segunda-feira, 26 de junho de 2017

Resenha: "O segredo dos corpos", de Dr. Vincent Di Maio e Ron Franscell


Eu me formei em Letras, mas no mestrado pude conhecer os Estudos Culturais, caminho que envolve uma interdisciplinaridade tão grande e tantas possibilidades de pesquisas que me trouxe percepções aprofundadas até mesmo para os meus hobbys e interesses fora da academia. Criminalística, exclusão social, violência e seus efeitos nos sujeitos são assuntos pelos quais sempre me interessei - na verdade, já prestei concurso para investigadora da Polícia Civil e pretendo fazê-lo de novo, embora tenha quase certeza que não conseguiria passar no teste físico.

Já assisti a inúmeros documentários sobre o tema e li outros tantos livros, mas, à exceção das obras da Ilana Casoy, não há muitas publicações em português elaboradas especificamente por especialistas (há muitos livros por jornalistas e escritores) e comprar livros importados requer um dinheiro que eu não tenho hoje em dia.

O livro O segredo dos corpos, da DarkSide Books, foi uma agradável surpresa para alguém aficionada pelo tema como eu: narra diversos casos em que o Dr. Vincent Di Maio, renomado patologista forense, trabalhou enquanto atuava como legista e, posteriormente, como consultor. E todas as histórias deixam claro o quanto essa profissão não é nem um pouco glamourosa, como os seriados de TV nos fazem acreditar - e que o salário é baixo quando comparado ao de outras especialidades médicas.

Dr. Di Maio é um velho conhecido dos fãs de documentários policiais, além de ser um dos mentores da Dra. Jan Garavaglia, da série Dr. G: Medical Examiner, exibida pelo canal Discovery Life, que é a responsável pelo prefácio da obra.

Em parceria com o autor Ron Franscell, conhecido por seus livros sobre crimes reais - um gênero literário bastante popular nos Estados Unidos - o Dr. Di Maio oferece uma visão em primeira pessoa daquele profissional sobre o qual, frequentemente, cai a responsabilidade de coletar os verdadeiros elementos que levarão à solução de um crime.

Entre as histórias estão a exumação do cadáver de Lee Harvey Oswald, assassino do presidente John F. Kennedy, devido à propagação de uma bizarra teoria da conspiração e a consultoria prestada durante o julgamento do vigia George Zimmerman, que atirou no jovem negro Trayvon Martin em 2012, alegando que ele apresentava comportamento suspeito.

A escrita permite uma leitura fluida, apesar de algumas informações repetidas a cada novo caso - quase como se as histórias tivessem sido publicadas separadamente antes de serem reunidas do livro, informação que não encontrei. De qualquer forma, o livro consegue manter o leitor interessado, principalmente devido às reviravoltas que ocorrem a cada caso, algumas com resultados mais ou menos esperados, outras com desfechos que não poderíamos imaginar.

Esse é um livro que recomendo bastante. Para quem quiser adquirir, segue o link:

domingo, 25 de junho de 2017

Resenha: "Diário de uma escrava", de Rô Mierling


As edições da DarkSide Books são meio que um objeto de fetiche, de tão lindas. Com este Diário de uma escrava não é diferente: capa dura e a lateral das folhas em tons que misturam azul e rosa, encontrando-se numa camada roxa ao centro da página. Um grande problema desses livros é que não tenho coragem de carregá-los comigo na mochila, porque tenho medo de danificá-los, principalmente quando a capa é muito clara, como a obra em questão, que tem a capa branca.

Eu não encontrei muito sobre a autora Rô Mierling, a não ser em sua página. Nela, descobri que a escritora e antologista é gaúcha e que escreve sobre crimes, terror psicológico e realidade social, aparentemente com o intuito de retratar a sociedade e a realidade cruéis em que vivemos.

A proposta de Diário de uma escrava segue precisamente essa linha. Trata-se do relato em primeira pessoa de uma garota sequestrada e mantida como escrava sexual. De fato, a autora se esforça para trazer ao leitor as nuances dessa experiência tão extrema, embora eu tenha a impressão de que ela está tão preocupada em chocar a partir do asco proporcionado por cenas de violência que se esquece de elaborar uma narrativa que seja realmente interessante. Parece não haver desenvolvimento ao longo da obra, apenas interações que levam a descrições pormenorizadas de situações de violência de maneira realista. 

O livro pode ter um excelente apelo entre adolescentes e jovens adultos, mas, do meu ponto de vista, a narrativa em si é boba e acaba ficando um pouco cansativa, pois falta complexidade. Eu não diria que o romance é ruim, imagino que seja, inclusive, muito útil para levantar o debate a respeito de sequestro de crianças e jovens no Brasil. Vi muitas pessoas elogiando a obra e acredito que quem gosta de uma leitura mais direta e sem muitas nuances pode gostar, mas não acho que o livro chegue a ser bom o suficiente para que eu recomende a leitores ávidos que já passaram dos 25 anos de idade.

Para quem quiser conferir:
 

Retomando o blog

Com as atividades do doutorado eu acabei deixando o blog de lado, mas pretendo retomá-lo e transformá-lo em algo mais interessante para amantes de literatura como eu. Não deixarei de colocar aqui dicas para escrever bem, ensaios sobre a escrita, mas vou adicionar reviews de livros tanto teóricos quanto ficcionais. Como minha vida se resume a analisar obras textuais por um ponto de vista acadêmico, sinto falta de fazer críticas menos formais sobre livros que nem sempre são bem aceitos na academia, mas que adoro: romances policiais, de suspense e de terror. Espero que consiga manter essa linha com mais frequência do que a forma como usei o blog anteriormente!


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Dicas para se preparar para o ENEM 2016


Ainda estamos em abril, mas se engana quem acha que falta muito para o ENEM. Em vista do quanto é preciso estudar, o tempo é curto e, com base nos últimos acontecimentos na política brasileira, podemos delimitar uma lista de temas que provavelmente serão abordados pelo Exame Nacional do Ensino Médio, bem como vestibulares e até mesmo concursos.

Vale lembrar que o edital do ENEM 2016 acabaram de ser publicados e as inscrições começam no dia 9 de maio!

Os fatos que levaram ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff têm sido comparados a outros acontecimentos do passado, além de haver uma evidente polarização entre defensores "da esquerda" e "da direita" - os quais se justificam a partir de questões sociais, políticas e históricas.

Primeiramente, o candidato que deseja ter uma visão esclarecida do tema precisa se distanciar de suas próprias convicções para aprender o que são, de fato, ideais de esquerda e ideais de direita. Hoje, com o excesso de informação e a fabricação de notícias e histórias falsas ou distorcidas, confiar no que dizem os seguidores de uma política esquerdista ou direitista é perigoso. Se você pretende fazer uma prova, deve saber como ambas as linhas de pensamento se originaram e, principalmente, o que elas pregam em sua teoria.

Por exemplo, quando falamos em Karl Marx, há diferenças consideráveis entre o que ele escreveu, o que se vê como marxismo, o que se vê como socialismo e o que se vê como comunismo. O livro "Manifesto do Partido Comunista", escrito por Marx e Engels, tem poucas páginas e é de fácil leitura - e se você conhecer os ideais "na fonte", sendo contra eles, terá ainda mais argumentos para refutá-los, pois saberá diretamente o que dizem em vez de se basear nas descrições de outras pessoas.

Desde a publicação do Manifesto e a revolução que levou ao estabelecimento da União Soviética, ocorreram mudanças e releituras ideológicas importantes e, posteriormente, surgiram ainda mais segmentos do pensamento socialista e comunista. Sendo assim, você usar a União Soviética ou qualquer outro país que tenha adotado um regime comunista como paradigma para o comunismo pode lhe render notas baixas, pois você deve saber contextualizar e analisar cada caso.

Não deixe que suas crenças políticas se coloquem no caminho e procure, sempre que possível, adotar um olhar mais distanciado, de um estudante em busca de informações.

Em segundo lugar, procure fazer uma linha do tempo com fatos históricos que possam ter alguma relação entre si até os acontecimentos atuais. Leia sobre o golpe militar de 1964 e sobre o regime que se seguiu, pois graças à fala imprudente de Jair Bolsonaro (homenageando o coronel Brilhante Ustra) é provável que elaboradores de provas retomem esse período em específico.

Novamente, ao estudar sobre o regime militar no Brasil, não se deixe levar pelas ideologias em que acredita e atenha-se ao que está nos livros, mesmo que não concorde com a forma como relatam os fatos.

Por fim, leia o máximo que puder sobre o impeachment. Tome notas do que está na Constituição Federal de 1988 e compare com o que afirmam os que são a favor do impedimento da presidente e também com o que dizem os que são contra. É importante que você leia notícias de múltiplos jornais porque suas tendências políticas determinam a forma como os textos são escritos.

Estude também sobre o impeachment de Collor e sobre a atuação do PMDB à época. Vale a pena repetir: coloque os fatos à frente de suas crenças e conclusões.

Para exercitar sua capacidade de elaborar uma redação, você pode escrever sobre seu ponto de vista em uma dissertação. Tente explicar, da forma mais impessoal possível, porque você acha que o impeachment é válido e deve acontecer. Depois, procure escrever como se você estivesse "do outro lado", discordando de seu próprio ponto de vista e oferecendo argumentos para isso.

O objetivo é que você elabore um texto convincente independentemente do que lhe é pedido. Com as duas redações produzidas por você em mãos, compare os argumentos e a forma como você dissertou assumindo cada uma das posições e procure notar em quais pontos é preciso melhorar. O que acontece é que, partindo de sua opinião pessoal, é provável que você elabore um texto mais convincente e enfático. Contudo, quando você se vê preparado para convencer o outro daquilo em que você não acredita e é capaz de mesmo assim produzir um bom texto, isso significa que você pode atender ao objetivo de qualquer redação que lhe seja solicitada.

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Dicas de leitura:

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Qual o seu tipo de inteligência?

Falamos em "tipo de inteligência" porque a individualidade de uma pessoa passa também pelas áreas em que ela se sai melhor cognitivamente. Cada um de nós apresenta tendências a se interessar por campos específicos do saber e a aprender mais facilmente quando aplicadas determinadas técnicas ou métodos de ensinamento.

Nos séculos passados, principalmente com a difusão do racionalismo e da valorização da cientificidade, pesquisadores acreditavam que era possível medir a inteligência de forma quantitativa, a exemplo do teste de QI ("Quociente de Inteligência"). Porém, como esse teste é baseado em raciocínio lógico imediato, não vem sendo mais usado, uma vez que psicólogos e profissionais que o aplicavam começaram a observar que pessoas consideradas inteligentes e bem-sucedidas na vida não necessariamente eram as que obtinham notas mais altas.

Somente nos anos 1980 a questão da inteligência seria encarada de maneira mais analítica e menos generalista, com a publicação de "Estruturas da Mente", em 1983, pelo neurologista e pesquisador Howard Gardner. Em seu livro, ele descreve sete dimensões ou áreas da inteligência, cunhado uma teoria que se tornou conhecida como "Teoria das Inteligências Múltiplas": visual-espacial; lógica-matemática; verbal; musical; interpessoal; intrapessoal; e corporal-cinestética. Posteriormente, ele propôs ainda mais duas outras dimensões, a naturalista e a existencialista (sobre esta última, ainda não há tantos estudos, mantendo-se apenas como proposta).

Ainda de acordo com Gardner, testes de QI apenas revelam as inteligências lógica-matemática e verbal (ou linguística), chamadas de "inteligências clássicas". Obviamente, uma pessoa não apresenta exclusivamente um tipo de inteligência e isso não significa que ela se sairá mal nas outras. De fato, certos tipos aparecem agrupados ou combinados com maior frequência que outros porque dependendo do campo de estudo e trabalho ao qual você se dedica, é provável que você exercite mais certas áreas do conhecimento semelhantes entre si.


(Fonte das imagens: Mundo Interpessoal)




domingo, 10 de janeiro de 2016

A redação do ENEM e a falta de atenção dos jovens


À época da realização do ENEM, em outubro de 2015, muitos comemoraram o tema da redação, com a certeza de que tirariam uma boa nota. Agora, divulgados os resultados, todos se perguntam o que teriam feito de errado para que suas notas fossem tão baixas.

Não é preciso ler as redações para adivinhar que um dos principais problemas foi a falta de atenção dos que prestaram a prova, não diferenciando propriamente o que seria o texto dissertativo daquela forma com a qual estão acostumados a escrever em redes sociais.

Infelizmente, muitos carregaram a informalidade da internet para suas redações, além de não se aterem ao que foi pedido no exercício - não se tratava de falar sobre o feminismo, mas da persistência da violência contra a mulher na sociedade. A motivação para a violência poderia ser apontada como estando no machismo, mas havia a necessidade de se explicar como isso ocorre, como as ideias machistas levam à agressão contra a mulher.

O texto também não pode ser escrito sem planejamento, com introdução, desenvolvimento e conclusão - nesta parte, espera-se ainda que o aluno proponha uma solução para o problema.
Além de se atentar para a tarefa pedida, o candidato certamente conseguirá um texto mais claro e conciso se usar frases curtas e prestar bastante atenção ao uso dos conectivos.

E para quem acha que é impossível "fechar" a redação, vale a pena conhecer a história da paraense que conseguiu os tão sonhados 1000 pontos, publicada no G1.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Nós, geração Y

Chegamos ao fim de julho e, em apenas 7 meses já aconteceu muito neste ano de 2015! A velocidade com que as coisas ocorrem é sintomática do quanto nosso tempo parece reduzido nessa época de imediatismo em que somos obrigados a exercer tarefas múltiplas, a nos desdobrar.

Você já notou como os anúncios de vagas em empresas, hoje, exigem muito mais habilidades de um candidato? E que a pós-graduação é praticamente uma continuação da faculdade, quase um curso complementar?

Fazemos parte de uma geração (batizada de "Geração Y") que teve mais oportunidades que a anterior, a de nossos pais. Obviamente, se mais oportunidades nos foram dadas, mais será exigido de nós. Ao mesmo tempo, porque o "multi" fez parte de nosso crescimento - sempre fizemos várias coisas, tivemos várias paixões -, é de se entender que faça parte de nossos trabalhos. Provavelmente, a geração posterior à nossa terá de lidar com ainda mais excessos em todos os âmbitos.

(fonte da imagem: Fórmula do Sucesso)

Ao que parece, todo esse acesso à tecnologia e à informação também nos tornou mais ambíguos. Porque tivemos, tecnicamente, mais educação que nossos pais, tendemos a ser mais questionadores. Contudo, somos também mais consumidores - e o consumo é uma poderosa forma de alienação.
A facilidade de certas conquistas, se comparadas às dificuldades de nossos pais, faz com que não precisemos nos empenhar tanto. Ao mesmo tempo, porque somos mais ambiciosos, procuramos por paixões que nos estimulem a trabalhar.

Somos, porém, bem mais individualistas no que diz respeito aos valores. Preocupar-se com o "outro" é um problema, porque já temos problemas demais sozinhos. Mas a ambivalência aparece também aqui: somos incapazes de viver sem interagir, pois faz parte do nosso egoísmo não tolerar a solidão. Daí o grande sucesso das redes sociais, que nos oferecem a ilusão de estarmos sempre "acompanhados", sempre rodeados de pessoas. Diga-se de passagem, essas redes também nos fazem achar que somos mais importantes do que realmente somos.

Acontece que, não interessa o que façamos, o lugar em que estamos ou o número de diplomas que temos... somos apenas pessoas. O que isso quer dizer? Que nossa vida acaba e o mundo continua, sem a gente.