sexta-feira, 22 de abril de 2016

Dicas para se preparar para o ENEM 2016


Ainda estamos em abril, mas se engana quem acha que falta muito para o ENEM. Em vista do quanto é preciso estudar, o tempo é curto e, com base nos últimos acontecimentos na política brasileira, podemos delimitar uma lista de temas que provavelmente serão abordados pelo Exame Nacional do Ensino Médio, bem como vestibulares e até mesmo concursos.

Vale lembrar que o edital do ENEM 2016 acabaram de ser publicados e as inscrições começam no dia 9 de maio!

Os fatos que levaram ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff têm sido comparados a outros acontecimentos do passado, além de haver uma evidente polarização entre defensores "da esquerda" e "da direita" - os quais se justificam a partir de questões sociais, políticas e históricas.

Primeiramente, o candidato que deseja ter uma visão esclarecida do tema precisa se distanciar de suas próprias convicções para aprender o que são, de fato, ideais de esquerda e ideais de direita. Hoje, com o excesso de informação e a fabricação de notícias e histórias falsas ou distorcidas, confiar no que dizem os seguidores de uma política esquerdista ou direitista é perigoso. Se você pretende fazer uma prova, deve saber como ambas as linhas de pensamento se originaram e, principalmente, o que elas pregam em sua teoria.

Por exemplo, quando falamos em Karl Marx, há diferenças consideráveis entre o que ele escreveu, o que se vê como marxismo, o que se vê como socialismo e o que se vê como comunismo. O livro "Manifesto do Partido Comunista", escrito por Marx e Engels, tem poucas páginas e é de fácil leitura - e se você conhecer os ideais "na fonte", sendo contra eles, terá ainda mais argumentos para refutá-los, pois saberá diretamente o que dizem em vez de se basear nas descrições de outras pessoas.

Desde a publicação do Manifesto e a revolução que levou ao estabelecimento da União Soviética, ocorreram mudanças e releituras ideológicas importantes e, posteriormente, surgiram ainda mais segmentos do pensamento socialista e comunista. Sendo assim, você usar a União Soviética ou qualquer outro país que tenha adotado um regime comunista como paradigma para o comunismo pode lhe render notas baixas, pois você deve saber contextualizar e analisar cada caso.

Não deixe que suas crenças políticas se coloquem no caminho e procure, sempre que possível, adotar um olhar mais distanciado, de um estudante em busca de informações.

Em segundo lugar, procure fazer uma linha do tempo com fatos históricos que possam ter alguma relação entre si até os acontecimentos atuais. Leia sobre o golpe militar de 1964 e sobre o regime que se seguiu, pois graças à fala imprudente de Jair Bolsonaro (homenageando o coronel Brilhante Ustra) é provável que elaboradores de provas retomem esse período em específico.

Novamente, ao estudar sobre o regime militar no Brasil, não se deixe levar pelas ideologias em que acredita e atenha-se ao que está nos livros, mesmo que não concorde com a forma como relatam os fatos.

Por fim, leia o máximo que puder sobre o impeachment. Tome notas do que está na Constituição Federal de 1988 e compare com o que afirmam os que são a favor do impedimento da presidente e também com o que dizem os que são contra. É importante que você leia notícias de múltiplos jornais porque suas tendências políticas determinam a forma como os textos são escritos.

Estude também sobre o impeachment de Collor e sobre a atuação do PMDB à época. Vale a pena repetir: coloque os fatos à frente de suas crenças e conclusões.

Para exercitar sua capacidade de elaborar uma redação, você pode escrever sobre seu ponto de vista em uma dissertação. Tente explicar, da forma mais impessoal possível, porque você acha que o impeachment é válido e deve acontecer. Depois, procure escrever como se você estivesse "do outro lado", discordando de seu próprio ponto de vista e oferecendo argumentos para isso.

O objetivo é que você elabore um texto convincente independentemente do que lhe é pedido. Com as duas redações produzidas por você em mãos, compare os argumentos e a forma como você dissertou assumindo cada uma das posições e procure notar em quais pontos é preciso melhorar. O que acontece é que, partindo de sua opinião pessoal, é provável que você elabore um texto mais convincente e enfático. Contudo, quando você se vê preparado para convencer o outro daquilo em que você não acredita e é capaz de mesmo assim produzir um bom texto, isso significa que você pode atender ao objetivo de qualquer redação que lhe seja solicitada.

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Dicas de leitura:

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Qual o seu tipo de inteligência?

Falamos em "tipo de inteligência" porque a individualidade de uma pessoa passa também pelas áreas em que ela se sai melhor cognitivamente. Cada um de nós apresenta tendências a se interessar por campos específicos do saber e a aprender mais facilmente quando aplicadas determinadas técnicas ou métodos de ensinamento.

Nos séculos passados, principalmente com a difusão do racionalismo e da valorização da cientificidade, pesquisadores acreditavam que era possível medir a inteligência de forma quantitativa, a exemplo do teste de QI ("Quociente de Inteligência"). Porém, como esse teste é baseado em raciocínio lógico imediato, não vem sendo mais usado, uma vez que psicólogos e profissionais que o aplicavam começaram a observar que pessoas consideradas inteligentes e bem-sucedidas na vida não necessariamente eram as que obtinham notas mais altas.

Somente nos anos 1980 a questão da inteligência seria encarada de maneira mais analítica e menos generalista, com a publicação de "Estruturas da Mente", em 1983, pelo neurologista e pesquisador Howard Gardner. Em seu livro, ele descreve sete dimensões ou áreas da inteligência, cunhado uma teoria que se tornou conhecida como "Teoria das Inteligências Múltiplas": visual-espacial; lógica-matemática; verbal; musical; interpessoal; intrapessoal; e corporal-cinestética. Posteriormente, ele propôs ainda mais duas outras dimensões, a naturalista e a existencialista (sobre esta última, ainda não há tantos estudos, mantendo-se apenas como proposta).

Ainda de acordo com Gardner, testes de QI apenas revelam as inteligências lógica-matemática e verbal (ou linguística), chamadas de "inteligências clássicas". Obviamente, uma pessoa não apresenta exclusivamente um tipo de inteligência e isso não significa que ela se sairá mal nas outras. De fato, certos tipos aparecem agrupados ou combinados com maior frequência que outros porque dependendo do campo de estudo e trabalho ao qual você se dedica, é provável que você exercite mais certas áreas do conhecimento semelhantes entre si.


(Fonte das imagens: Mundo Interpessoal)




domingo, 10 de janeiro de 2016

A redação do ENEM e a falta de atenção dos jovens


À época da realização do ENEM, em outubro de 2015, muitos comemoraram o tema da redação, com a certeza de que tirariam uma boa nota. Agora, divulgados os resultados, todos se perguntam o que teriam feito de errado para que suas notas fossem tão baixas.

Não é preciso ler as redações para adivinhar que um dos principais problemas foi a falta de atenção dos que prestaram a prova, não diferenciando propriamente o que seria o texto dissertativo daquela forma com a qual estão acostumados a escrever em redes sociais.

Infelizmente, muitos carregaram a informalidade da internet para suas redações, além de não se aterem ao que foi pedido no exercício - não se tratava de falar sobre o feminismo, mas da persistência da violência contra a mulher na sociedade. A motivação para a violência poderia ser apontada como estando no machismo, mas havia a necessidade de se explicar como isso ocorre, como as ideias machistas levam à agressão contra a mulher.

O texto também não pode ser escrito sem planejamento, com introdução, desenvolvimento e conclusão - nesta parte, espera-se ainda que o aluno proponha uma solução para o problema.
Além de se atentar para a tarefa pedida, o candidato certamente conseguirá um texto mais claro e conciso se usar frases curtas e prestar bastante atenção ao uso dos conectivos.

E para quem acha que é impossível "fechar" a redação, vale a pena conhecer a história da paraense que conseguiu os tão sonhados 1000 pontos, publicada no G1.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Nós, geração Y

Chegamos ao fim de julho e, em apenas 7 meses já aconteceu muito neste ano de 2015! A velocidade com que as coisas ocorrem é sintomática do quanto nosso tempo parece reduzido nessa época de imediatismo em que somos obrigados a exercer tarefas múltiplas, a nos desdobrar.

Você já notou como os anúncios de vagas em empresas, hoje, exigem muito mais habilidades de um candidato? E que a pós-graduação é praticamente uma continuação da faculdade, quase um curso complementar?

Fazemos parte de uma geração (batizada de "Geração Y") que teve mais oportunidades que a anterior, a de nossos pais. Obviamente, se mais oportunidades nos foram dadas, mais será exigido de nós. Ao mesmo tempo, porque o "multi" fez parte de nosso crescimento - sempre fizemos várias coisas, tivemos várias paixões -, é de se entender que faça parte de nossos trabalhos. Provavelmente, a geração posterior à nossa terá de lidar com ainda mais excessos em todos os âmbitos.

(fonte da imagem: Fórmula do Sucesso)

Ao que parece, todo esse acesso à tecnologia e à informação também nos tornou mais ambíguos. Porque tivemos, tecnicamente, mais educação que nossos pais, tendemos a ser mais questionadores. Contudo, somos também mais consumidores - e o consumo é uma poderosa forma de alienação.
A facilidade de certas conquistas, se comparadas às dificuldades de nossos pais, faz com que não precisemos nos empenhar tanto. Ao mesmo tempo, porque somos mais ambiciosos, procuramos por paixões que nos estimulem a trabalhar.

Somos, porém, bem mais individualistas no que diz respeito aos valores. Preocupar-se com o "outro" é um problema, porque já temos problemas demais sozinhos. Mas a ambivalência aparece também aqui: somos incapazes de viver sem interagir, pois faz parte do nosso egoísmo não tolerar a solidão. Daí o grande sucesso das redes sociais, que nos oferecem a ilusão de estarmos sempre "acompanhados", sempre rodeados de pessoas. Diga-se de passagem, essas redes também nos fazem achar que somos mais importantes do que realmente somos.

Acontece que, não interessa o que façamos, o lugar em que estamos ou o número de diplomas que temos... somos apenas pessoas. O que isso quer dizer? Que nossa vida acaba e o mundo continua, sem a gente.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Apelação argumentativa ou desonestidade intelectual?

A preguiça de interpretar ou de se informar não é novidade nas redes sociais. A internet e o excesso de informação editada fazem com que as pessoas tenham preguiça de pensar, de se informar adequadamente, facilitando que descarreguem suas opiniões equivocadas da maneira como bem entendem.

Em março, foram publicadas resoluções no Diário Oficial da União que garantem alguns direitos a pessoas transgênero. Essas pessoas passam a ter garantido, dentro das escolas e demais instituições de ensino, o uso do nome social e a possibilidade de frequentar os banheiros de acordo com suas respectivas identidades de gênero.

A notícia começou a se espalhar agora por conta de um texto repleto de equívocos publicado na página “Cabral arrependido”, que começa da seguinte forma:

Parece piada, achei mesmo que fosse piada, mas é real. Dilma lançou uma resolução que permite ao homossexual e aos transgêneros escolherem nas escolas e universidades, qual banheiro querem usar.

Sendo assim sua filha ou sua mulher será obrigada a usar o mesmo banheiro que um homem vestido de mulher, desde que ele alegue que se acha mulher também. Isso é um absurdo imoral e prova que o país está em um estado lastimável.

Deixando de lado os erros gramaticais, gostaria de focar apenas nas falácias argumentativas...
Claramente, o discurso do autor demonstra como ele não tem conhecimento de conceitos como sexualidade e identidade de gênero, estando alheio ainda à condição transexual ao dizer que “um homem vestido de mulher” seria um indivíduo afetado pelo projeto.

A homossexualidade é uma orientação sexual. Isso significa que indivíduos homossexuais se sentem atraídos por outros do mesmo gênero. Sendo assim, são homens que se atraem por homens e mulheres que se atraem por mulheres. Esses homens não apresentam desejo de “virar mulher”, nem essas mulheres apresentam desejo de “virar homem”, pois o que está em jogo aqui é o gênero pelo qual as pessoas se atraem, é o objeto de desejo. Dessa forma, homens gays e mulheres lésbicas continuarão, como sempre fizeram, usando respectivamente os banheiros masculino e feminino.

A transgeneridade é uma identidade de gênero que vai de encontro à do “sexo biológico”. Isso quer dizer que, se a pessoa nasceu com um pênis e foi, portanto, designada pelo médico como “menino”, ela sofrerá pelo fato de “ter mente feminina”. Trata-se da noção de “nascer no corpo errado”. Não há aqui nenhuma perversão ou questão sexual associada. Trata-se de alguém que, por se sentir num corpo inadequado, busca modificar esse corpo para que ele esteja em conformidade com sua auto-percepção, com sua mente. Não é “um homem vestido de mulher”, mas uma mulher que nasceu no corpo de um “homem”; essa pessoa deseja viver, a todo momento, como uma mulher, expressa-se como uma mulher, experiência a vida como uma mulher. Não se trata de uma simples alegação e, por isso mesmo, esses indivíduos passam por avaliações psicológicas e sentem a necessidade de se apresentarem, a todo momento, como pessoas do gênero com o qual se identificam.

Essa pessoa passa por um processo complexo de aceitação de si que só é ainda mais dificultado pela sociedade que não considera sua condição como legítima. A finalidade do tal projeto de lei é esta: LEGITIMAR A CONDIÇÃO TRANS.

No mais, banheiros públicos têm cabines justamente para que ninguém seja obrigado a se expor, e é certo que essas pessoas, cerceadas pelos valores heteronormativos, vão continuar a esconder seus corpos “diferenciados”.

Quer um exemplo de como essa lei pode ser benéfica? Leia esta notícia!

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Caso Verônica e o apelo das presunções (ou "A morte da capacidade argumentativa")

Presumir: v.t. Julgar segundo certas probabilidades; considerar como provável; conjeturar.
Supor, suspeitar.Ter presunção; vangloriar-se: os que presumem de sábios.Implicar, pressupor.
O debate sobre o caso da travesti Verônica Bolina vem assolando a internet nesta semana. Verônica foi presa por suspeita de agredir uma vizinha de 73 anos; ao que parece, no boletim de ocorrência consta uma prisão em flagrante.

Verônica ainda não passou por julgamento, portanto não foi considerada culpada pela justiça. O que sabemos é que, como resultado dos prováveis atos de violência cometidos por Verônica, uma senhora encontra-se em estado grave e uma outra travesti, Beatriz, que teria se posicionado para defender a senhora, encontra-se também ferida.

Neste ponto, preciso ressaltar que não encontrei nenhuma notícia a respeito do caso que levou Verônica a ser presa. As informações das quais tenho conhecimento adquiri lendo comentários de outras pessoas.
A julgar por essas informações, penso que, sendo considerada culpada, Verônica deve pagar por seus crimes. Deve ir para a cadeia e receber o tratamento que recebem todas as prisioneiras. E se apresentar comportamento violento dentro da cadeia, deve também receber as devidas punições, como qualquer outra detenta.

A partir dessa afirmação, gostaria de deixar aqui algumas perguntas: detentas de classes mais altas recebem o mesmo tratamento que detentas pobres? Detentas loiras e bonitas recebem o mesmo tratamento que detentas negras, detentas gordas, detentas feias ou de aparência deteriorada? Detentas de "aparência feminina" recebem o mesmo tratamento que detentas "masculinizadas"? Deveriam todas as detentas receber o mesmo tratamento? Por quê?

Sabemos que a instituição policial não trata os indivíduos como iguais, sabemos que, no Brasil, não somos iguais perante a lei, conforme está escrito na Constituição Federal. Sabemos, então, que os indivíduos que se encontram na "parte baixa" da escala não serão tratados com o mesmo respeito que aqueles que se encontram no "topo da cadeia alimentar". Uma travesti, negra e prostituta, no que diz respeito à escala social, encontra-se no lugar mais baixo que se pode imaginar. E caso ela se envolva em alguma confusão ou situação violenta, sabemos também que seu tratamento será o de que ela é culpada até que prove o contrário - exatamente o oposto do que se determina na Constituição.

Mas, suponhamos que Verônica seja realmente culpada de ter atentado contra a vida da idosa e de uma outra travesti. Verônica vai presa a fim de pagar por seus crimes.

Na cadeia, ela é alocada juntamente à população carcerária masculina, pois o nome e o "sexo" que constam em sua identidade são masculinos. Verônica, independentemente de sua aparência física, esperará por julgamento em uma cela com diversos homens. O problema? Esta é a aparência física de Verônica:


Estaria Verônica segura em uma cela com outros homens? Não é preciso muito para concordar que, em uma cela lotada, Verônica corre mais riscos que qualquer outro detento ali dentro. Aliás, é justamente por isso que toda travesti, ao ser presa, tem o direito de solicitar uma cela separada, uma vez que é de responsabilidade daquela instituição governamental - a polícia - manter a integridade física de todos os indivíduos detidos. (Essa medida envolveria a proteção de ambos os lados, pois Verônica corre o risco de ser agredida, mas pode também agredir em retaliação a provocações verbais.)

Quando começaram a surgir as notícias de que Verônica havia arrancado a orelha de um carcereiro, o relato que se tinha da polícia era de que ela o agrediu enquanto era transferida de uma cela para outra. Curiosamente, após o fato tomar maiores proporções por conta da indignação de grupos defensores dos Direitos Humanos, passou a circular o relato de que Verônica teria mostrado seu pênis em atos obscenos, simulando uma masturbação. Foi aí que o carcereiro abriu a cela e tirou Verônica de lá.

Meu senso crítico me faz refletir sobre uma travesti que decide se masturbar diante de outros presos, dentro de uma cela... Ela não se colocaria em um risco ainda maior? Se uma travesti sabe que ficará por vários dias, semanas ou meses na mesma cela que outros homens, um ato como esse seria garantir que fosse estuprada por algum companheiro de cela.

Outra questão está na mudança do relato por parte do próprio carcereiro. Ele, que aparece sorrindo na foto em que sua orelha é mostrada, apenas falou de ato obsceno cometido por Verônica após ser acusado de agressão contra a travesti.


Dentre tantos relatos e acusações, só uma coisa é certa: não sabemos o que aconteceu. Não sabemos se Verônica mordeu a orelha do carcereiro como ação ou reação. Sabendo que tal ato acarretaria agravamento de sua sentença na ocasião do julgamento, pergunto-me ainda se Verônica o teria feito "de graça", agredindo o sujeito sem motivo algum. Há ainda outros boatos que afirmam que o carcereiro apalpou Verônica de forma indevida.

Tendo em mente todas essas dúvidas, não me esqueço de que Verônica é acusada de um crime. Ao mesmo tempo, não me esqueço do que diz a Constituição Federal, em seu Art. 5º: "XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais".

Somente após a manifestação pela defesa de Verônica ela foi transferida para o Centro de Detenção Provisória Chácara Belém 2, onde ficará em uma cela reservada a indivíduos LGBT.

Aqui, surge minha outra dúvida: se Verônica tivesse sido encaminhada para essa cela antes, teria ela agredido o carcereiro? Se a detenta apanhou porque estava agredindo um oficial, por que o ataque foi em seu rosto, uma vez que todos os oficiais são treinados e sabem que os meios mais efetivos de se conter uma pessoa não envolvem o rosto?

Aliás, colocar uma travesti numa cela com outros homens que certamente a assediarão, a agredirão, a humilharão não é contribuir para que ela se torne uma pessoa que carregue ainda mais raiva dentro de si, sendo muito mais agressiva e perigosa?

Dizem ainda que Verônica foi agredida pelos presos, sendo eles os responsáveis pelo desfiguramento. Se foi esse o caso, por que Verônica foi a única a ser colocada de bruços no chão, com as calças rasgadas e algemada também pelas pernas? Se houve uma agressão em conjunto que culminou na mutilação do carcereiro por Verônica, por que apenas a ela foi reservada a contenção extra?

Não, não há resposta objetiva para nenhuma das perguntas que fiz. Cada um enxerga o que lhe é conveniente e, como já alertava Nietzsche, ao se colocar numa posição, qualquer pessoa enxergará de acordo com o local em que está. Ninguém é capaz de enxergar tudo, ninguém é capaz de ser o detentor da verdade, pois para indivíduos diferentes existem verdades diferentes.

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Quando tento discutir o tema com indivíduos que defendem que Verônica é uma criminosa perigosa, as únicas respostas que obtenho são a de que estou me posicionando a favor de uma espancadora de velhinhas, que eu a defendo com o discurso, mas não deixaria minha avó ou minha mãe perto dela para ser espancada. Acontece que não há nem mesmo razão para colocarem minha família na discussão!

Ninguém percebe a diferença de me posicionar a favor da punição de oficiais que abusaram de sua autoridade em relação a uma detenta. Verônica já se encontra presa e já está pagando pelo crime que é acusada de cometer. O que eu defendo é que, dentro da cadeia, ela tenha o mesmo tratamento dos demais. Se ela agredir um oficial, defendo também que deva pagar por isso! Para tanto, deve ser acrescido um tempo à sua sentença. 

O que não defendo é que ela seja espancada brutalmente e tenha de permanecer numa situação de riscos maiores que aqueles já apresentados pelo fato de estar presa.
Afinal, se qualquer preso denuncia um policial por maus tratos, ele se torna alvo de perseguição. Se Verônica admitisse ter sido agredida, ela se tornaria alvo de perseguição extra: por ser uma travesti em meio a uma população carcerária de homens e por ter a audácia de denunciar policiais.

O que não defendo é que oficiais continuem a agir como bem entendem dentro das prisões em função do poder que lhes é conferido pelo Estado.

domingo, 5 de abril de 2015

Como estamos?

Testemunhamos uma falta de razão generalizada entre todos, mas principalmente entre os que defendem crenças ou ideologias ditas tradicionais - ou que insistem em reproduzir o senso comum.

A falta de percepção crítica passa por um desejo de não ouvir o que o outro tem a dizer, de não considerar a multiplicidade de pensamentos e perspectivas que fazem que haja verdades diferentes para sujeitos diferentes. Nós constantemente nos esquecemos do fato de que cada um fala de um lugar e que isso é determinante do ponto de vista.

Não há mais debates, apenas acusações e confrontamentos agressivos de ideias e pseudo-informações jogadas na cara um do outro. Há apenas conflitos nos quais um se empenha tanto em destruir a verdade do outro por meio principalmente de difamações, e como resultado, deixa de perceber o valor da reflexão, da pesquisa, e de se adquirir novos conhecimentos.

Notícias, falsas informações, leituras equivocadas aos montes - são as cartas jogadas na mesa em busca de se fazer ouvir.

E dane-se a dignidade do outro, que é obviamente um ignorante por se recusar a crer na mesma verdade que eu, por não se colocar em meu lugar - mesmo que eu não me coloque no lugar dele.
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Sugestão de leitura: Portal Alexandria - A voz das minorias, ou o governo da maioria?