quinta-feira, 30 de julho de 2015

Nós, geração Y

Chegamos ao fim de julho e, em apenas 7 meses já aconteceu muito neste ano de 2015! A velocidade com que as coisas ocorrem é sintomática do quanto nosso tempo parece reduzido nessa época de imediatismo em que somos obrigados a exercer tarefas múltiplas, a nos desdobrar.

Você já notou como os anúncios de vagas em empresas, hoje, exigem muito mais habilidades de um candidato? E que a pós-graduação é praticamente uma continuação da faculdade, quase um curso complementar?

Fazemos parte de uma geração (batizada de "Geração Y") que teve mais oportunidades que a anterior, a de nossos pais. Obviamente, se mais oportunidades nos foram dadas, mais será exigido de nós. Ao mesmo tempo, porque o "multi" fez parte de nosso crescimento - sempre fizemos várias coisas, tivemos várias paixões -, é de se entender que faça parte de nossos trabalhos. Provavelmente, a geração posterior à nossa terá de lidar com ainda mais excessos em todos os âmbitos.

(fonte da imagem: Fórmula do Sucesso)

Ao que parece, todo esse acesso à tecnologia e à informação também nos tornou mais ambíguos. Porque tivemos, tecnicamente, mais educação que nossos pais, tendemos a ser mais questionadores. Contudo, somos também mais consumidores - e o consumo é uma poderosa forma de alienação.
A facilidade de certas conquistas, se comparadas às dificuldades de nossos pais, faz com que não precisemos nos empenhar tanto. Ao mesmo tempo, porque somos mais ambiciosos, procuramos por paixões que nos estimulem a trabalhar.

Somos, porém, bem mais individualistas no que diz respeito aos valores. Preocupar-se com o "outro" é um problema, porque já temos problemas demais sozinhos. Mas a ambivalência aparece também aqui: somos incapazes de viver sem interagir, pois faz parte do nosso egoísmo não tolerar a solidão. Daí o grande sucesso das redes sociais, que nos oferecem a ilusão de estarmos sempre "acompanhados", sempre rodeados de pessoas. Diga-se de passagem, essas redes também nos fazem achar que somos mais importantes do que realmente somos.

Acontece que, não interessa o que façamos, o lugar em que estamos ou o número de diplomas que temos... somos apenas pessoas. O que isso quer dizer? Que nossa vida acaba e o mundo continua, sem a gente.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Apelação argumentativa ou desonestidade intelectual?

A preguiça de interpretar ou de se informar não é novidade nas redes sociais. A internet e o excesso de informação editada fazem com que as pessoas tenham preguiça de pensar, de se informar adequadamente, facilitando que descarreguem suas opiniões equivocadas da maneira como bem entendem.

Em março, foram publicadas resoluções no Diário Oficial da União que garantem alguns direitos a pessoas transgênero. Essas pessoas passam a ter garantido, dentro das escolas e demais instituições de ensino, o uso do nome social e a possibilidade de frequentar os banheiros de acordo com suas respectivas identidades de gênero.

A notícia começou a se espalhar agora por conta de um texto repleto de equívocos publicado na página “Cabral arrependido”, que começa da seguinte forma:

Parece piada, achei mesmo que fosse piada, mas é real. Dilma lançou uma resolução que permite ao homossexual e aos transgêneros escolherem nas escolas e universidades, qual banheiro querem usar.

Sendo assim sua filha ou sua mulher será obrigada a usar o mesmo banheiro que um homem vestido de mulher, desde que ele alegue que se acha mulher também. Isso é um absurdo imoral e prova que o país está em um estado lastimável.

Deixando de lado os erros gramaticais, gostaria de focar apenas nas falácias argumentativas...
Claramente, o discurso do autor demonstra como ele não tem conhecimento de conceitos como sexualidade e identidade de gênero, estando alheio ainda à condição transexual ao dizer que “um homem vestido de mulher” seria um indivíduo afetado pelo projeto.

A homossexualidade é uma orientação sexual. Isso significa que indivíduos homossexuais se sentem atraídos por outros do mesmo gênero. Sendo assim, são homens que se atraem por homens e mulheres que se atraem por mulheres. Esses homens não apresentam desejo de “virar mulher”, nem essas mulheres apresentam desejo de “virar homem”, pois o que está em jogo aqui é o gênero pelo qual as pessoas se atraem, é o objeto de desejo. Dessa forma, homens gays e mulheres lésbicas continuarão, como sempre fizeram, usando respectivamente os banheiros masculino e feminino.

A transgeneridade é uma identidade de gênero que vai de encontro à do “sexo biológico”. Isso quer dizer que, se a pessoa nasceu com um pênis e foi, portanto, designada pelo médico como “menino”, ela sofrerá pelo fato de “ter mente feminina”. Trata-se da noção de “nascer no corpo errado”. Não há aqui nenhuma perversão ou questão sexual associada. Trata-se de alguém que, por se sentir num corpo inadequado, busca modificar esse corpo para que ele esteja em conformidade com sua auto-percepção, com sua mente. Não é “um homem vestido de mulher”, mas uma mulher que nasceu no corpo de um “homem”; essa pessoa deseja viver, a todo momento, como uma mulher, expressa-se como uma mulher, experiência a vida como uma mulher. Não se trata de uma simples alegação e, por isso mesmo, esses indivíduos passam por avaliações psicológicas e sentem a necessidade de se apresentarem, a todo momento, como pessoas do gênero com o qual se identificam.

Essa pessoa passa por um processo complexo de aceitação de si que só é ainda mais dificultado pela sociedade que não considera sua condição como legítima. A finalidade do tal projeto de lei é esta: LEGITIMAR A CONDIÇÃO TRANS.

No mais, banheiros públicos têm cabines justamente para que ninguém seja obrigado a se expor, e é certo que essas pessoas, cerceadas pelos valores heteronormativos, vão continuar a esconder seus corpos “diferenciados”.

Quer um exemplo de como essa lei pode ser benéfica? Leia esta notícia!

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Caso Verônica e o apelo das presunções (ou "A morte da capacidade argumentativa")

Presumir: v.t. Julgar segundo certas probabilidades; considerar como provável; conjeturar.
Supor, suspeitar.Ter presunção; vangloriar-se: os que presumem de sábios.Implicar, pressupor.
O debate sobre o caso da travesti Verônica Bolina vem assolando a internet nesta semana. Verônica foi presa por suspeita de agredir uma vizinha de 73 anos; ao que parece, no boletim de ocorrência consta uma prisão em flagrante.

Verônica ainda não passou por julgamento, portanto não foi considerada culpada pela justiça. O que sabemos é que, como resultado dos prováveis atos de violência cometidos por Verônica, uma senhora encontra-se em estado grave e uma outra travesti, Beatriz, que teria se posicionado para defender a senhora, encontra-se também ferida.

Neste ponto, preciso ressaltar que não encontrei nenhuma notícia a respeito do caso que levou Verônica a ser presa. As informações das quais tenho conhecimento adquiri lendo comentários de outras pessoas.
A julgar por essas informações, penso que, sendo considerada culpada, Verônica deve pagar por seus crimes. Deve ir para a cadeia e receber o tratamento que recebem todas as prisioneiras. E se apresentar comportamento violento dentro da cadeia, deve também receber as devidas punições, como qualquer outra detenta.

A partir dessa afirmação, gostaria de deixar aqui algumas perguntas: detentas de classes mais altas recebem o mesmo tratamento que detentas pobres? Detentas loiras e bonitas recebem o mesmo tratamento que detentas negras, detentas gordas, detentas feias ou de aparência deteriorada? Detentas de "aparência feminina" recebem o mesmo tratamento que detentas "masculinizadas"? Deveriam todas as detentas receber o mesmo tratamento? Por quê?

Sabemos que a instituição policial não trata os indivíduos como iguais, sabemos que, no Brasil, não somos iguais perante a lei, conforme está escrito na Constituição Federal. Sabemos, então, que os indivíduos que se encontram na "parte baixa" da escala não serão tratados com o mesmo respeito que aqueles que se encontram no "topo da cadeia alimentar". Uma travesti, negra e prostituta, no que diz respeito à escala social, encontra-se no lugar mais baixo que se pode imaginar. E caso ela se envolva em alguma confusão ou situação violenta, sabemos também que seu tratamento será o de que ela é culpada até que prove o contrário - exatamente o oposto do que se determina na Constituição.

Mas, suponhamos que Verônica seja realmente culpada de ter atentado contra a vida da idosa e de uma outra travesti. Verônica vai presa a fim de pagar por seus crimes.

Na cadeia, ela é alocada juntamente à população carcerária masculina, pois o nome e o "sexo" que constam em sua identidade são masculinos. Verônica, independentemente de sua aparência física, esperará por julgamento em uma cela com diversos homens. O problema? Esta é a aparência física de Verônica:


Estaria Verônica segura em uma cela com outros homens? Não é preciso muito para concordar que, em uma cela lotada, Verônica corre mais riscos que qualquer outro detento ali dentro. Aliás, é justamente por isso que toda travesti, ao ser presa, tem o direito de solicitar uma cela separada, uma vez que é de responsabilidade daquela instituição governamental - a polícia - manter a integridade física de todos os indivíduos detidos. (Essa medida envolveria a proteção de ambos os lados, pois Verônica corre o risco de ser agredida, mas pode também agredir em retaliação a provocações verbais.)

Quando começaram a surgir as notícias de que Verônica havia arrancado a orelha de um carcereiro, o relato que se tinha da polícia era de que ela o agrediu enquanto era transferida de uma cela para outra. Curiosamente, após o fato tomar maiores proporções por conta da indignação de grupos defensores dos Direitos Humanos, passou a circular o relato de que Verônica teria mostrado seu pênis em atos obscenos, simulando uma masturbação. Foi aí que o carcereiro abriu a cela e tirou Verônica de lá.

Meu senso crítico me faz refletir sobre uma travesti que decide se masturbar diante de outros presos, dentro de uma cela... Ela não se colocaria em um risco ainda maior? Se uma travesti sabe que ficará por vários dias, semanas ou meses na mesma cela que outros homens, um ato como esse seria garantir que fosse estuprada por algum companheiro de cela.

Outra questão está na mudança do relato por parte do próprio carcereiro. Ele, que aparece sorrindo na foto em que sua orelha é mostrada, apenas falou de ato obsceno cometido por Verônica após ser acusado de agressão contra a travesti.


Dentre tantos relatos e acusações, só uma coisa é certa: não sabemos o que aconteceu. Não sabemos se Verônica mordeu a orelha do carcereiro como ação ou reação. Sabendo que tal ato acarretaria agravamento de sua sentença na ocasião do julgamento, pergunto-me ainda se Verônica o teria feito "de graça", agredindo o sujeito sem motivo algum. Há ainda outros boatos que afirmam que o carcereiro apalpou Verônica de forma indevida.

Tendo em mente todas essas dúvidas, não me esqueço de que Verônica é acusada de um crime. Ao mesmo tempo, não me esqueço do que diz a Constituição Federal, em seu Art. 5º: "XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais".

Somente após a manifestação pela defesa de Verônica ela foi transferida para o Centro de Detenção Provisória Chácara Belém 2, onde ficará em uma cela reservada a indivíduos LGBT.

Aqui, surge minha outra dúvida: se Verônica tivesse sido encaminhada para essa cela antes, teria ela agredido o carcereiro? Se a detenta apanhou porque estava agredindo um oficial, por que o ataque foi em seu rosto, uma vez que todos os oficiais são treinados e sabem que os meios mais efetivos de se conter uma pessoa não envolvem o rosto?

Aliás, colocar uma travesti numa cela com outros homens que certamente a assediarão, a agredirão, a humilharão não é contribuir para que ela se torne uma pessoa que carregue ainda mais raiva dentro de si, sendo muito mais agressiva e perigosa?

Dizem ainda que Verônica foi agredida pelos presos, sendo eles os responsáveis pelo desfiguramento. Se foi esse o caso, por que Verônica foi a única a ser colocada de bruços no chão, com as calças rasgadas e algemada também pelas pernas? Se houve uma agressão em conjunto que culminou na mutilação do carcereiro por Verônica, por que apenas a ela foi reservada a contenção extra?

Não, não há resposta objetiva para nenhuma das perguntas que fiz. Cada um enxerga o que lhe é conveniente e, como já alertava Nietzsche, ao se colocar numa posição, qualquer pessoa enxergará de acordo com o local em que está. Ninguém é capaz de enxergar tudo, ninguém é capaz de ser o detentor da verdade, pois para indivíduos diferentes existem verdades diferentes.

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Quando tento discutir o tema com indivíduos que defendem que Verônica é uma criminosa perigosa, as únicas respostas que obtenho são a de que estou me posicionando a favor de uma espancadora de velhinhas, que eu a defendo com o discurso, mas não deixaria minha avó ou minha mãe perto dela para ser espancada. Acontece que não há nem mesmo razão para colocarem minha família na discussão!

Ninguém percebe a diferença de me posicionar a favor da punição de oficiais que abusaram de sua autoridade em relação a uma detenta. Verônica já se encontra presa e já está pagando pelo crime que é acusada de cometer. O que eu defendo é que, dentro da cadeia, ela tenha o mesmo tratamento dos demais. Se ela agredir um oficial, defendo também que deva pagar por isso! Para tanto, deve ser acrescido um tempo à sua sentença. 

O que não defendo é que ela seja espancada brutalmente e tenha de permanecer numa situação de riscos maiores que aqueles já apresentados pelo fato de estar presa.
Afinal, se qualquer preso denuncia um policial por maus tratos, ele se torna alvo de perseguição. Se Verônica admitisse ter sido agredida, ela se tornaria alvo de perseguição extra: por ser uma travesti em meio a uma população carcerária de homens e por ter a audácia de denunciar policiais.

O que não defendo é que oficiais continuem a agir como bem entendem dentro das prisões em função do poder que lhes é conferido pelo Estado.

domingo, 5 de abril de 2015

Como estamos?

Testemunhamos uma falta de razão generalizada entre todos, mas principalmente entre os que defendem crenças ou ideologias ditas tradicionais - ou que insistem em reproduzir o senso comum.

A falta de percepção crítica passa por um desejo de não ouvir o que o outro tem a dizer, de não considerar a multiplicidade de pensamentos e perspectivas que fazem que haja verdades diferentes para sujeitos diferentes. Nós constantemente nos esquecemos do fato de que cada um fala de um lugar e que isso é determinante do ponto de vista.

Não há mais debates, apenas acusações e confrontamentos agressivos de ideias e pseudo-informações jogadas na cara um do outro. Há apenas conflitos nos quais um se empenha tanto em destruir a verdade do outro por meio principalmente de difamações, e como resultado, deixa de perceber o valor da reflexão, da pesquisa, e de se adquirir novos conhecimentos.

Notícias, falsas informações, leituras equivocadas aos montes - são as cartas jogadas na mesa em busca de se fazer ouvir.

E dane-se a dignidade do outro, que é obviamente um ignorante por se recusar a crer na mesma verdade que eu, por não se colocar em meu lugar - mesmo que eu não me coloque no lugar dele.
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Sugestão de leitura: Portal Alexandria - A voz das minorias, ou o governo da maioria?

quarta-feira, 25 de março de 2015

Leitura dinâmica funciona?

Uma busca no Google sobre "como aumentar a velocidade de leitura" gera um sem número de artigos prometendo ensinar o indivíduo a ler mais rápido e a aproveitar melhor seu tempo ao estudar. Uma matéria em específico prometia um método para aumentar em até 300% a velocidade de leitura! E, bem, ao ler a matéria, percebi que o prometido poderia até ser cumprido, com técnicas que, na verdade, ensinam a passar rapidamente por um texto - não necessariamente compreendendo o que está nele.

Tecnicamente, ao não se reter em frases específicas, ao não fazer releituras e ao melhorar a visão periférica, é isso o que vai acontecer: você vai ler, o que não significa que vá entender. Portanto, não vejo a mudança como algo positivo para um estudante ou concurseiro, por exemplo, pois a suposta leitura rápida apenas o permitirá vislumbrar informações, sem apreendê-las. A referida técnica pode ser boa no caso de um texto sobre o qual você já estudou e tem uma dimensão de suas ideias e conceitos gerais - dessa forma, você pretende ler o texto apenas para conhecê-lo "na fonte".

Honestamente, o que essa técnica prega é uma forma de se adaptar à nossa realidade, em que somos obrigados a lidar com um milhão de informações num só dia, a maioria delas não sendo nem importante para nós. Nos acostumamos tanto a fazer tudo com velocidade que perdemos nossa capacidade de leitura que leva ao entendimento, algo que podemos claramente notar em discussões nas redes sociais - indivíduos que se preocupam em argumentar sem, antes, perceber o argumento do outro, gerando uma repetição sem fim de "pseudo argumentos" frequentemente desnecessários. (Enquanto faço este post, pela minha cabeça estão passando diversas discussões nas quais uma pessoa veio discordar de mim com assertividade, tornando-se até agressiva, para simplesmente repetir o que eu acabara de afirmar! Ou seja, a pessoa não havia se preocupado em ler - ou entender - minha fala, mas queria tanto expor a dela que não percebia que nós estávamos afirmando exatamente a mesma coisa, mas com palavras diferentes.)

Acredito que, no lugar de tentar fazer uma leitura mais rápida, a pessoa deva se preocupar em compreender o que lê. A velocidade de leitura em si certamente aumentará com a prática (tal como a velocidade de escrita).

Para quem tem uma carga de leitura grande pela frente e sabe que não será possível completá-las, as melhores dicas que posso sugerir estão neste texto:

Truques Simples para Ler e Reter Informações mais Rapidamente.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Para argumentar melhor

Desenvolver uma boa argumentação não é tarefa fácil. Para embasar um pensamento ou uma ideia é preciso lançar mão de fatos, teses, opiniões, problemas e propostas de solução, tudo bem encadeado de forma racional e lógica.
Para começar, é necessário ter uma concepção bem clara do gênero textual que você está prestes a redigir. Gêneros diferentes devem ser escritos com base em regras diferentes; um texto argumentativo, por exemplo, costuma ser breve e requer maior precisão, ao passo que um artigo acadêmico pode ser mais extenso e melhor desenvolvido em termos de detalhamento das explicações.
Contudo, há estratégias que devem ser observadas em qualquer texto que envolva a apresentação de um ponto de vista, para que ele seja bem sucedido naquilo que se propõe – convencer o leitor.
  • Tenha um propósito bem definido. Procure definir, antes de começar a desenvolver o texto: 1) Qual a questão a ser respondida? 2) Como eu planejo responde-la? 3) Qual solução posso oferecer?
  • Faça uma lista ou um esquema de suas ideias antes de começar a escrever. Assim você não correrá o risco de se esquecer de alguma parte importante do raciocínio. Um esquema também lhe ajudará a visualizar melhor seu “caminho argumentativo”.
  • Tome cuidado para não apresentar argumentos de maneira superficial. Não apresente um ponto de vista a não ser que você seja capaz de defende-lo.
  • Não faça generalizações. Tenha, para toda afirmação que você desejar apresentar no texto, uma evidência ou uma referência a fim de confirma-la, ou desenvolva um raciocínio lógico que leve a ela.
  • Evite usar adjetivos em excesso, que possam prejudicar a objetividade do seu texto. Se não for relevante para transmitir sua ideia, simplesmente elimine a palavra. Outra característica prejudicada pelo uso dos adjetivos e advérbios é a da impessoalidade – quanto menos impessoal você soar, menos efetiva será sua argumentação.
  • Dê preferência a frases curtas. Frases muito longas são uma armadilha para quem tem pressa em escrever – eventualmente você vai acabar se esquecendo de usar um verbo ou um conectivo adequado e a frase não terá mais sentido; quando você usa muitos adjetivos, isso também pode acontecer.
  • Pratique diariamente (sim, já falei isso e nunca é demais repetir)! Desde a escola aprendemos que conhecer uma fórmula não significa saber como usá-la; o mesmo acontece com o texto.
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Leituras recomendadas:


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Perca ou perda?

Por incrível que pareça, deparo-me com frequência com artigos acadêmicos em que o indivíduo usa "perca" em vez de "perda", como se "perca" fosse o substantivo. Trata-se de uma forma relativamente simples: PERDA é o substantivo formado a partir do verbo "perder".


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Escrita acadêmica vs. escrita criativa


Quando pensamos na redação acadêmica, com todas suas formalidades, não a associamos com criatividade como fazemos ao considerar narrativas, contos ou poemas. Um artigo científico deve ser objetivo e claro, não havendo muito espaço para inovações em suas páginas.

Ainda assim, é possível identificar semelhanças nos processos das escritas acadêmica e criativa relacionados à construção do texto como um todo, e teóricos e pesquisadores podem aprender muito com outros escritores e vice-versa. Independentemente do estilo ou do gênero, é importante que um texto apresente uma boa estrutura, partindo de um objetivo claro e pré-determinado.

No caso da escrita exigida pela universidade, com a qual somos obrigados a lidar quer gostemos ou não, há uma fórmula específica que pode ser seguida e oferecer um bom resultado. Além do mais, quanto mais leituras teóricas fazemos, mais acostumados ficamos ao estilo, e não há problema algum em seguir o exemplo desses textos à risca - tomando os devidos cuidados, obviamente, para não copiar o texto em si. Talvez a parte mais difícil, ou pelo menos trabalhosa, do gênero em questão seja o planejamento e o desenvolvimento de um primeiro esboço. É preciso organizar as ideias de uma forma lógica e transparente, e que, de preferência, confira certa fluidez à escrita - o que tornará a leitura mais agradável também. Você também deve tomar sempre cuidado para não escrever com uma linguagem muito repetitiva, sem variações; procure substituir as palavras que aparecem com mais frequência em seu texto por sinônimos - daí a utilidade de ter sempre um dicionário à mão. (Aliás, graças à internet, é possível recorrer a um dicionário de sinônimos online clicando aqui!)

Para que um texto, qualquer que seja, tenha efetividade, é necessário definir uma linha temática e quais os termos-chave a guiarem o processo. Em se tratando de um artigo acadêmico, você não conseguirá persuadir o leitor de seu ponto de vista a não ser que você determine com precisão o seu entendimento do tópico e o lugar de onde você "fala". Já no caso de uma história ficcional, você precisa fornecer uma imagem vívida do mundo ou da ambientação em que a narrativa irá ocorrer, para que o leitor possa compreender bem o contexto.

Outra característica crucial está na especificidade. Enquanto no artigo ou no ensaio há a necessidade de oferecer exemplos sólidos e concisos que correspondam às definições e teorias explicadas por você, na escrita criativa é importante que o desenvolvimento dos personagens esteja de acordo com suas intenções, não se desviando daquele universo composto ao longo da história. Se, por um lado, os exemplos devem estar explícitos numa escrita acadêmica, por outro lado, você pode tornar tudo mais implícito numa narrativa ficcional, que não demanda explicações.

E vale a pena lembrar: pratique! Pratique sempre! Mesmo que você só consiga escrever umas poucas frases ou em tópicos naqueles dias mais estressantes, escreva para não perder o costume - não precisa fazer um texto completo e revisado todos os dias.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Para ser mais criativo - parte 2

O cérebro humano não é uma máquina; ele se cansa. Mesmo as pessoas mais criativas e constantemente estimuladas têm seu limite. Por isso, saiba que pressionar uma pessoa criativa só porque ela produz com frequência pode resultar em uma entrega de um péssimo trabalho. Por esse mesmo motivo, precisamos trabalhar com prazos específicos. Eu, por exemplo, não consigo traduzir mais de 20 páginas no dia, nem revisar mais de 35. Chega um momento em que sua energia física e mental se esgota.

Conheço muitas pessoas que parecem estar em constante atividade, conduzindo vários projetos ao mesmo tempo e que simplesmente não conseguem parar. Pode até ser que essas pessoas produzam muito - mas o resultado certamente tem uma qualidade baixa.

Portanto, para ser uma pessoa mais criativa, não basta apenas viver de estímulos. É preciso descansar periodicamente. E é extremamente positivo, em termos de economia de energia, manter-se em uma rotina - se você pesquisar sobre os hábitos de escritores consagrados, notará que a maioria deles mantinha uma rotina rigorosa. Ao manter hábitos certos, o cérebro entra em uma espécie de modo automático, que não requer tanta energia. Dessa forma, no momento de criar você irá tirar proveito justamente do que foi economizado pela manutenção de hábitos.

Outra coisa extremamente importante: durma, e durma bem. Durma 8 horas por dia. Enquanto você dorme, o cérebro é capaz de dispersar as toxinas acumuladas durante o dia, além de reforçar algumas partes da memória, no caso de algum material novo que você tenha lido ou estudado.

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Sugestão de leitura: Escola de Criatividade.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sobre a dificuldade de se conseguir silêncio


Tanto para estudarmos quanto para lermos ou escrevermos precisamos de silêncio. O grande problema é que estamos praticamente soterrados por barulho. Nosso cotidiano é barulhento, até mesmo nosso sono costuma ser barulhento!
Eu me pergunto se teríamos medo do silêncio, como temos medo da solidão.

O mês de janeiro ainda terminou e eu mal consigo contar quantas vezes fiquei irritada com todo o barulho feito aqui em casa e nos arredores - pela moça que trabalha aqui, pelos meus pais, pelos vizinhos... E tudo piora em épocas de férias - dos outros. Aliás, quem trabalha em casa deve estar acostumado com a percepção alheia de que, se você passa o dia inteiro dentro de casa na frente do computador, provavelmente é porque não está fazendo nada... Sendo que meu dia de trabalho começa às 10 da manhã e se encerra às 22 da noite. O principal motivo? Interrupções, porque acham que não estou fazendo nada. Das 12 horas diárias que passo tentando produzir (leia-se pesquisar, estudar, ler, escrever, revisar textos de outros, traduzir e dar atenção a quem precisa de orientação para escrever), 4 horas correspondem à média de interrupção; com sorte, passo 8 horas trabalhando.

De todos os requerimentos para se ter um dia produtivo, em que seja possível se concentrar unicamente no trabalho, eu falho em apenas um: encontrar um ambiente silencioso. Nem mesmo bibliotecas são silenciosas mais! E protetores auriculares apenas reduzem o barulho, mas não o cessam.

E quanto a você, leitor? Qual sua relação com o barulho e com o silêncio?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Para ser mais criativo - parte 1

Caderno de bolso de D. Pedro II
Se você acha que o seu problema é a falta de criatividade para encontrar temas sobre os quais escrever, há certas atitudes que você pode tomar a fim de melhorar esse "bloqueio". A primeira delas é criar o hábito de escrever todos os dias - sobre qualquer coisa! Tenha um caderno para rascunhos, no qual você se sinta livre para escrever, desenhar ou colar o que bem entender. Faça listas de palavras, descreva lugares onde você já esteve... Ao carregar o caderno sempre com você, recorrendo a ele toda vez que der na telha, fica mais fácil de registrar ideias e pensamentos. E quando você se sentir vazio, sem inspiração, é lá que você deverá procurar.

Não há escritor famoso que não tenha uma história sobre seu caderno de anotações para contar. Não precisa ser um Moleskine com capa de couro; um pequeno bloco pode servir muito bem. O único limite para você deve ser o tamanho das páginas. Não escreva no caderno pensando no que os outros vão pensar; ele deve ser construído apenas para você, como fonte de ideias que lhe permitirão refletir sobre seus pensamentos, fraquezas, e analisar como você pode seguir evoluindo.

Mesmo que seu objetivo não seja o de se tornar um escritor ou artista profissional, é possível que você se beneficie do hábito de manter um diário de notas como estratégia terapêutica - muitas vezes, uma forma de desabafar com um "amigo".

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Para se inspirar, dê uma olhada nos incríveis "rascunhos" dos cadernos de Guillermo del Toro (diretor de "O Labirinto do Fauno" e "Hellboy"): Blog Dr. Caligari.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Coesão textual

Uma vez que a coesão é a manifestação linguística da coerência, muitos se confundem em relação aos dois conceitos. Em suma, a coesão diz respeito aos mecanismos e elementos linguísticos que vão conferir uma lógica de sentido entre as partes do texto. Quando usamos adequadamente esses mecanismos, de forma coesa, obtemos, então, a coerência, que diz respeito ao sentido propriamente dito do texto. Ou seja, a coesão se encontra no âmbito estrutural e a coerência, no âmbito da significação.

Conectivos, por exemplo, são elementos coesivos (ou de coesão). O texto sem conectivos, feito apenas a partir de palavras soltas, não transmite sentido. O texto com conectivos inadequados corre o risco de passar uma ideia errada, diferente da pretendida pelo autor. Daí parte a sugestão de se compor um texto com frases curtas: para não se perder com os conectivos. Quanto maior a frase, mais conectivos ela requer, e mais chances de usar conectivos errados aparecem - significando maior probabilidade de a frase perder sua clareza.

Devemos sempre ser cuidadosos ao unir as orações, de forma a expressar objetivamente nossas ideias. Esse cuidado seria um dos primeiros fatores a caracterizar um bom escritor.
Às vezes escrevemos com pressa, ansiosos para colocar todos os nossos pensamentos no papel, e como resultado, literalmente atropelamos as conjunções que deveriam justamente expor aqueles pensamentos de maneira clara. É por isso que todos os professores chamam a atenção para a necessidade de reler tudo o que escrevemos - preferencialmente, mais de uma vez.

Assim que terminar um texto, leia-o uma primeira vez para se certificar de ter tratado de tudo o que pretendia tratar. Após confirmar que o conteúdo está completo, leia o texto novamente, prestando atenção à estrutura e ao sentido de cada oração. A segunda leitura, idealmente, deve ser feita com certo distanciamento - se você tiver tempo, deixe-a para o dia seguinte ou para dali a alguma horas; no caso de um concurso ou prova, saia para tomar uma água ou ir ao banheiro, respire fundo, e só então a faça. Ela lhe permitirá notar erros menores aos quais não damos muita atenção quando fazemos uma revisão apressada ou com a cabeça cheia.

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Sugestão: a página Atelier de Redação oferece uma seção de downloads (gratuitos), na qual você pode encontrar diversos exercícios, além de um "Estudo das conjunções" e um "Quadro de conectivos" bem elaborado.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Ótimos links sobre redação e literatura

Há diversos objetivos que envolvem a escrita. Seja para comunicar algo a alguém através de um e-mail, seja para apresentar seus serviços em redes sociais, ou mesmo para contar sobre sua vida em um blog: em certos momentos, o ato da escrita é inevitável. Por essa razão, deveríamos pensar que, ainda que ocasionalmente, todos nós somos escritores - isso pode ser até uma forma de a redação ser mais valorizada durante os anos escolares, bem como aulas de literatura e língua.

Volto a afirmar que não existem técnicas infalíveis para que a pessoa se torne uma boa escritora, mas há, sim, dicas bastante eficientes. Algumas podem até parecer óbvias, mas não adianta nada achar isso e não seguir! (Afinal, se é óbvio, por que você ainda não está fazendo?!)

Outra questão que pode ser levantada a partir dessa história de "dicas" ou "regras" ou "técnicas" é a de que atualmente a procura maior é por indivíduos inovadores, que sabem "pensar fora da caixa". Mas para "sair da caixa" é preciso que você conheça o que há dentro dela; para quebrar uma regra, é preciso, antes, conhecê-la bem; para se inovar ou desenvolver uma nova técnica, é necessário saber quais foram as técnicas aplicadas anteriormente. Resumindo com um clichêzinho: não vá mergulhar em alto-mar se você não consegue nadar em uma piscina!

E para se escrever bem, tenha um caderno para fazer anotações e praticar... Comece tomando nota por estes textos: (observem que gêneros diferentes comportam técnicas diferentes, por exemplo, um artigo de blog ou de jornal pode começar com uma pergunta como estratégia para chamar a atenção do leitor, mas se trata de uma péssima ideia em artigos acadêmicos ou dissertações mais formais)
  1. InfoEscola: 10 dicas para escrever melhor
  2. Guia do Estudante: Trinta dicas "infalíveis" para escrever bem (o que eu mais gosto nesse texto é que ele exemplifica as falhas a partir das próprias dicas)
  3. Viver de blog: Como escrever bem
  4. InfoEscola: Dicas para redação no Vestibular e Enem (que servem para todas as ocasiões, na verdade)
  5. BestReader: Como escrever melhor

O desespero de não se conseguir escrever bem

É curioso como grande parte dos alunos é capaz de formular uma frase concisa e inteligível oralmente, mas não consegue repetir o feito quando se trata de colocar ideias no papel. Quantas vezes não lemos comentários em redes sociais que não fazem sentido algum escritos por pessoas perfeitamente capazes de se comunicar por meio da linguagem oral?

Em artigo escrito pelo doutorando Pedro Perini-Santos, o autor discute sobre a predominância cada vez mais intensa da oralidade sobre a escrita, fator que influencia diretamente no estilo dos textos contemporâneos. Esses se tornam simplificados e tendem à informalidade, em comparação ao excesso de formalismos e "firulas" das composições textuais antigas.

Contudo, isso não responde à minha pergunta: apegar-se à oralidade e à informalidade resulta também em uma incapacidade de articulação na escrita? Afinal, simplicidade e falta de clareza são características um tanto quanto diferentes.

Pensando na maneira como as informações são difundidas hoje em dia, percebemos uma multimodalidade, em que predominam textos curtos, esquemas ou infográficos e imagens. Pergunto-me, então, se o estímulo ao aspecto visual por meio de figuras em detrimento de textos não estaria tornando as pessoas preguiçosas e apressadas. Preguiçosas porque não querem ler segmentos longos sem ilustrações; apressadas porque desejam apenas saber da informação-chave, normalmente contida em pequenas legendas abaixo das imagens ou em rápidas chamadas, sem se interessar pelos motivos ou contextualizações oferecidos justamente pelos textos.

Como revisora, temo ainda que tudo isso torne meu trabalho escaladamente mais penoso e difícil, ao me obrigar a reescrever cada vez mais parágrafos inteiros, em vez de apenas corrigir erros gramaticais.

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Leitura suplementar:

Escrever, escrever, escrever


Eu não sei o que me leva a escrever. Eu não sei o que leva outras pessoas a escrever. Cada um tem suas experiências, técnicas e processos. Existem livros que prometem ensinar o indivíduo a escrever, mas a verdade é que não há fórmulas precisas; há técnicas em comum, partilhadas por vários escritores, mas não há um passo-a-passo ideal.
Sempre tive facilidade com as palavras, além de uma curiosidade a respeito do processo e do motivo pelo qual diversas outras pessoas não conseguirem desenvolver sua escrita - algo que, para mim, ocorre de maneira simples.

Por meio deste blog, pretendo partilhar minhas experiências e leituras a respeito da ato de escrever e, quem sabe, ser capaz de ajudar a quem enxerga a redação como uma verdadeira batalha quase impossível de se vencer.

Alguns dos textos aqui publicados podem ser encontrados também em inglês em minha página do HubPages (quando for esse o caso, haverá uma indicação com link para a outra versão).